A barata

8 01 2011

Viu a barata em cima da pia que comia o sabonete, era o mesmo que utilizava para lavar a mão e a bunda. Lastimou.
Sem dar um passo lançou o chinelo, zunindo pelo ar resvalou na torneira e acertou uma formiga que estava no lugar errado na hora errada, a barata correu aumentando sua repulsa por insetos.
Olhou-a de forma querer fritá-la, rapidamente mirou a cozinha e  pegou o Rodazol em baixo da pia, ela sabia que ele estava ali e mesmo assim continuava sem se mexer desafiando-o.
Espirrada certeira. Sentiu-se aliviado. Em poucos minutos estava escovando os dentes enquanto ouvia seu corpo raspar pelos vãos do armarinho numa tentativa desesperadora de não ver seu fim.
Cuspiu a espuma da pasta, voltando ao espelho lá estava ela fraquejando enroscada em um tufo de poeira, cuspiu novamente, sacou o chinelo do outro pé aguardando o triunfo com satisfação.
Entre um espasmo e outro pelos azulejos lá estava cambaleante, asfixiada e agonizante.
Estacou como em um pedido de clemência… Pláah! A chinelada fatal!
Como numa morte sem gosto, deu trabalho ao ficar grudada na sola, sofreu outro arremesso e toda injustiça social estava resolvida.
Vísceras! Enquanto suas patas mexiam aleatoriamente, seus miúdos estavam espalhados pelo banheiro, sadicamente mais uma borrifada de veneno, viu sua morte lenta de forma prazerosa, contente, saiu assobiando.
Opa, não por muito tempo, calou-se aos xingos de seu pai, eram 3:50 da manhã.





Rotina

13 10 2010

Abra a janela, quebre aquela garrafa do outro lado do muro, faça o gato para de miar.
Feche a cortina, preciso apenas da luminosidade.
Preciso de um minuto de silêncio.
O cachorro precisa passear e eu preciso dormir.
Tá vendo o buraco no carpete? Não fui eu.
O tênis embaixo da cama, foi o cachorro que trouxe aí.
Tá ventando, mudei de idéia.
Feche a janela, ligue o som da sala.
Coloque aquela música de poucas batidas em volume baixo,
não quero problemas com o vizinho.
Lavaram o quintal e o jogaram água no cacho de abelha,
elas foram picar o cachorro dele, que é alérgico.
Fiz de conta que não estava em casa, foi um acidente, pisei em falso.
Muda a música por favor, essa aí me dá dor de cabeça.
Abaixa o volume.
Voltando… eu tenho que fazer alguma coisa com esse frio.
Deixei todo o ar quente sair quando você abriu a janela.
Já to indo, já to indo…
Tô me esforçando.
Olha o vizinho ai, não disse que ele ia perceber.
Ah, o cachorro… tá internado.
Tem esse cobertor, dá uma bela cortina.
Resolve o problema do ar quente quando abrirem a janela.
Torradas com geléia de frutas vermelhas, patê natural de azeitona por favor.
Mel para adoçar o leite, hm, parece que alguém mora no campo.
Liga o computador que tenho um trabalho para terminar.
Dá o nosso cachorro pro vizinho, faz menos cocô que o dele.
O que? É demais? Você vai passear com ele?
Por que raios alguém coloca 30 segundos de musica no Myspace?
Ah, aqui está.
Pera, vou ali atrás gritar.
Meu novo blog, criação única.
Tinha um tapete aqui no chão! O cachorro levou!
O vizinho foi embora, desistiu.
Jogou um saco de cocô de cachorro no quintal, menos mal.
Alguém falou pra ele o que o gato dele fez nas plantas ontem?
Agora já foi, ele só quer reconhecimento.
Todos querem.





Gaian

8 09 2009

Nenhum outro dia poderia ser tão marcante para Gaian como foi aquela tarde na  chácara da família onde passavam as férias, era o último final de semana antes  de voltarem a grande metrópole e verem sua tranqüilidade ficar para trás com a  belíssima paisagem.
Fazia muito calor, o jovem Danton havia almoçado e já fazia algumas horas que  brincava com seus irmãos mais novos e se preparava para sua última empreitada  daquelas férias. Durante todos os dias ele ia até o lago nos fundo da  propriedade e mergulhava, adorava a sensação de ser envolvido pela água que  apesar de gelada sempre fazia-o voltar no dia seguinte.
Naquele final de tarde, o último mergulho foi sentido de uma forma diferente.  Ele subiu no alto de uma pedra que ficava junto ao lago e pulou com toda sua  força: braços abertos, joelhos dobrados como se fosse mergulhar de barriga e num movimento repentino corrigiu o corpo no ar e mergulhou de cabeça indo até o  fundo da lagoa de águas claras como se olhasse por um vidro, poucos segundos  antes de dar a primeira braçada para emergir sentiu como se o tempo parasse,  algumas de suas mais profundas reflexões juvenis vieram a tona, no momento que  via alguns peixes e a vegetação no fundo do lago em um colorido vivo, lembrou do infinito amor de seus pais e que aquele mergulho revelara-lhe o tamanho de afeto de ruas relações.
Olhou para cima e viu o céu, tinha a sensação de ver as nuvens passarem mais  rápido projetando a sombras que variavam entre tons claros e escuros por todo o  gramado e sobre a casa. Naquele momento se via no meio do sentido humano, da  Existência, do Amor, em contrapartida, naquele momento sentiu algumas lágrimas  pelos olhos, viu que chorava, eram lágrimas de tristeza, de dor, de injustiça de tudo que ainda não vira e não conhecera, inconsciente em meio a água, concentrou toda sua atenção em encolher-se e buscar força em meio a dois sentimentos tão  antagônicos. Sentiu seu interior como punhos fechados e bradou como se quebrasse uma espessa camada de gelo ao seu redor com sua ira.
Foi em um piscar de olhos, emergiu, puxando os braços simultaneamente em direção a superfície e novamente outra braçada, emergiu inspirando o mais profundo que  conseguiu. Passou a mão pelo rosto, tirando os cabelos dos olhos, ficou na  superfície e viu que tudo estava como antes de mergulhar.
Nadou até a borda do lago, saiu, pegou suas roupas e voltou para a casa, abraçou sua mãe ainda molhado e beijou seu pai que não o impediram de entrar todo  embarcado molhando o assoalho. Ele se dirigiu ao banheiro, tomou um banho quente, vestiu roupas enxutas e  cuidou de seus pequenos enquanto aguardava o momento de partir. Seus pais se
entre olharam, não entenderam absolutamente nada, só sabiam que algo havia  acontecido com o filho, mas o quê? Preferiram não falar, só se comunicaram com o olhos.
Gaian também não entendeu o que aquilo poderia ser, sabia que durante anos  mergulhando da mesma pedra, no mesmo lago sentira desta última vez a dúvida e a  sede pela vida, sabia que anos seguintes seriam diferentes.
A partir daquele dia, sua vida fora alimentados pela busca da verdade e a  encontrar respostas para uma causa maior, inexplicável e subjetiva no dom da  vida.





Os amiginhos da criança

10 07 2008

Na última terça-feira me ví surpreendido por uma enxurrada de crianças por toda a empresa, desde o momento que fui almoçar me deparei que os pequerruchos estavam tão presentes quanto a preocupação dos pais com o trabalho, era o dia da família na empresa ou seja como chamam aqui.
A tarde ví que os pequenos cidadãos estavam por todos os corredores e no colo de todas as pessoas que juram nunca ter filhos, todos babando e fazendo aquelas perguntas que se fosse eu no lugar das crianças detestaria ouvir, opinião pessoal tudo bem?
Após a metade do dia de ontem, mais precisamente depois do almoço eu me encontrava zapiando os canais da nossa “Tv aberta” e ví durante o jornal uma super dica como dizia a apresentadora para as crianças no feriado, numa reportagem um tanto quanto mal editada, narrada por uma criança que deveria estar trocando os dentes e com sono uma brincadeira talvez minha mãe tenha brincado quando criança ou pelo menos deve ter ouvido falar. Tratava-se do “Elástico”, a empolgação da apresentadora ao anunciar a dica me deixou curioso a ponto de relatar isso, a pergunta era “O que uma criança pode fazer com um elástico?” pensei inconscientemente “No mínimo, colocar entre os dedos mais um clip aberto e mandar nas costas de um adulto” fazendo alusão aos “estilingues” aprendido nas salas de aula públicas, logo não poderia ser, ví a fatídica criança anunciar “Você precisará de dois amiguinhos!” Dois amiguinhos?? Fiquei mais surpreso e ver que se tratava de um elastico daqueles que sua vó trocava em suas calças quando você era uma criança, lembra? Enfim, dois metros desse elástico que também servia para fazer estiligue mais dois amiguinhos.
A brincadeira consistia basicamente em um dois, possivelmente seus amiguinhos fazendo um quadrado com o elastico na altura do pés e você dono do elástico pulava com o pés alternando, dentro, fora, cruzando, uma seqüência que não vem ao caso.
Ainda sim a questão é “dois amiguinhos”?? Vamos por um pé na realidade e outro no bom senso, onde uma criança nascida no século XXI iria conseguir um elástico de dois metros de comprimento mais dois amigos pra fazer uma brincadeira que só os avós faziam em pleno feriado?
Ei, hoje temos Playstation 3, Nintendo Wii, celulares 3G, internet com banda larga, Tvs com alta resolução, sistema de som 5.1, 7.1, THX, DTS, Dobly, estou esquecendo de algo? Ah, os dois amigos, que criança tem dois amigos nas casas vizinhas ou nos apartamentos vizinhos dispostos a compartilhar o mesmo binquedo? Para que todos esses aparelhos tem conexão com a internet? Elementar meu caro amigo, nenhuma criança numa sociedade que precise se informar as 14H tem crianças a esse horário dispostar a ir para rua onde toda sorte de perigo se encontra.
Sem dúvida, os tempos são outros e a Tv deveria repensar sua programação, se for pra preencher o tempo da reportagem, uma tela preta com anúncio de loja de varejo seria mais interessante até para uma criança.





O Homem Social

21 06 2008

Em uma bela manhã de domingo ensolarada, um jovem estava entretido em meio aos últimos achados da biblioteca de sua cidade, papéis, documentos, arquivos, livros, caixas de jornais que guardavam anos de história de sua cidade que apesar de pequena colecionava curiosidades e hábitos um tanto quanto estranhos.

Folheando alguns jornais antigos ele encontrou uma notícia pertinente a um dos hábitos de sua cidade, a manchete trazia em letras garrafais o décimo concurso do “Homem Social” com o tema “O sorrido seguido de uma risada” promovido pela Secretaria do Cidadão” de sua cidade como uma forma de preparam os moradores para o futuro, afinal, todas as condições para receber o futuro eram favoráveis naqueles anos.

O estranho concurso incentivava o um novo modelo de sociedade ainda que a parte do resto do pais, o novo estilo de vida baseava-se no uso de roupas sociais, comportamento educado e compromisso com a sociedade e entre os cidadãos, características louváveis para os dias de hoje e alegria do utópicos. Devido a promoção dos anos anteriores do concurso, era notável o grande impulso ao consumo de toda sorte de objetos e artífices que fizesse de cada cidadão um mais respeitoso que o outro, eram uma espécie representantes da modernidade em cada esquina, por esse motivo o tema daquele ano visava alinhar o sorriso de cada cidadão do sexo masculino seguido de uma risada, era o ar de novos humores, após tomar um café, cumprimentar uma jovem pela rua ou nos efervescentes clubes sociais, verdadeiros ingleses pós Inglaterra Vitoriana.

A cidade fervia em escritórios, empreendimentos imobiliários, carros, bondes, balões, telefonia pública e serviços terceirizados eliminando toda uma camada de pobres e marginalizados, a corrupção havia sido banida e transformado administrações municipais em modelos para o estado.

Alguns jornais mais tarde aquele jovem encontra uma edição que anunciava o vencedor do concurso, o felizardo era Jorge Sinuca conhecido como “El mejor”, uma breve biografia do vencedor o descrevia simplesmente como o melhor da cidade, ele tinha um rosto relativamente fino para o padrão da época, um bigode cumprido de pelos finos mantido a muito custo, um corpo esguio e um olhar firme e claro, um sorriso seguido de uma risada marota que conquistava qualquer que se opusesse em sua frente, sorriso tal que o influenciou os organizadores do evento a se inspirarem nesse sorriso, os atributos para o concurso eram: tinha que ser o melhor, o mais ético, o mais sincero, o mais belo.

Não era de se espantar , Jorge tinha um acúmulo de bens generoso para sua idade, roupas impecáveis, uma esposa que vira a transformação do marido assim como sua ascensão social e o nascimento dos filhos, o “Homem Social” era mais que um concurso de beleza, mais que o um símbolo de status!

Naquele ano, Jorge entrou no concurso com todo seu empenho e brilho, fez grandes negócios, foi voluntário em programas governamentais, ajudou amigos, trabalhou exaustivamente, declarou todos os impostos, visitou o padre, hospitais, manicômios, médicos, trouxe gente influente para a cidade, se não fosse por uma falha.

Após os 15 minutos de fama ou mais para sua época, motivado pelo seu próprio orgulho e angústias inerente a alma humana x sua eleição diante de toda cidade e pessoas notórias, ele deixou de rir, não se sabe ao certo se foi pela exaustiva campanha ou se simplesmente sentou-se diante do espelho e viu a real condição humana.

Após ler essa última linha, o jovem se lembrou de todo sol que havia do lado de fora, abandonou os jornais entre toda montanha de livros e achados e lembrou que ainda estava em tempo de acompanhar a final do jogo de futebol com roupas compridas…