Água

4 04 2010

Pulei na água! Água viva que dá vida.
Água que me afogo e esbaldo
faço conchinhas com as mãos e me divirto.
Água que me permite rolar, pular, afundar.
Alegria, êxtase e paixão sob sua densidade.
Água compartilhada, com cloro, urinada, salivada.
Quantas borbulhas emocionantes tiradas de mim
bolinhas de CO² e CH4.
Lágrimas e suor são insipientes a sua grandeza.
Quem compartilhará de suas propriedades?
Nem unhas encravadas e fios de cabelos artificiais.
Quando te encontrei, foi assim, me apaixonei.
Há uma corrente entre nós, a água
um pé molhado e um fio desencapado.
Há água! Cuidado!
Nos ouvidos, queimando meus olhos, tirando meus sentidos.
Sem você o xampu e a limpeza não seriam nada.
Turva ou límpida, ainda é.
Como é bom cair na água.
Minha boca está cheia dela.

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EGO(2)

27 11 2009

Hoje acordei como tenho acordado todos os dias, irritado.
Não tinha café, só leite frio, murmurei.
O relógio não me ajuda, ninguém me ajuda.
Tropecei na cama enquanto colocava a calça, xinguei.
Meu humor não ajuda, só penso em mim.
Ego criado em uma caixa de sapato,
há muito tempo incubado hoje foi revelado.
Um estado que não muda, aumenta a paralisia mental.
Nada muda, tudo é a mesma coisa.
A chatice de ser eu mesmo todos os dias.
A mesma irritação, a mesma chatice, a mesma mesmice.
Quem não quer ser algo diferente?
Um ator, poeta, um membro de uma sociedade secreta.
A dupla identidade que nos fascina, muitas vezes antagonistas,
hoje, o fantasma dentro de mim
chama-se EGO.
Só penso em mim.
Tudo me desafia, quebrar essas paredes de superficialidade.
Atingir a carne e resgatar a profundidade.
O criador, o altruísta, pacifista e bem humorado,
como me sinto chato, um pelo encravado.
Pena de mim não pensa em ninguém.
Trato de correr e rápido.
Mais um dia penoso no trabalho.
Mais um, mais um, mais um e mais um
parece que não chega o outro.
Tudo dentro de mim está chato.
Só penso em mim.
Nada de espelhos, nada de fantasmas.
O desafio do palhaço em mim.
Correndo atrás do próprio rabo.
Que cara chato!
Diz-me outra coisa se não me vou embora.
Quero eliminar o EGO.
Lamento, não posso.
Aqui não tem ar-condicionado.





Lucidez

22 07 2009

A campanhia toca,
acorda, vai ver quem é
sua cabeça está muito longe da porta
longe para olhar pela janela.
enquanto deita na cama,
outro fantasma ecoa ao seu lado.
Só mais algumas horas,
a música alta não te deixa dormir,
(ou já dorme há muito?)

Respira fundo,
agora o barulho vem de fora.
Outro vizinho,
vazio,
grita, tenta chamar atenção
preso aí,
a pancada é seca,
um vinho sem sabor.

Olhos fecham
contra sua vontade.
Outros olham para dentro
A mente não ajuda
oferecem mais um pouco daquela bebida,
(adrenalina),

Imaginação,
acusação, sobre peso.
Alguém que escute
Alguém que escute
Tire a luxuria da mente,
leve os devaneios
mistérios da alma
Fugindo das grades
teias que criou
fastamas de si mesmo
nunca se vão
Horas e horas a procura socorro.

Assim que eles são
Assim que eles são
Assim que eles são
Assim que eles são
Assim que eles são
Assim que eles são





Notas

10 07 2009

Calmamente pego meu caderno e começo a divagar, o poeta senta e começa.
Como criar conexões entre o ceticismo e o crédulo? O real e o imaginário?
Algumas linhas podem nos definir, responder questões históricas: o que somos, o que fazemos, para onde iremos. Busco incessantemente caminhar pela fina linha dos sonhadores, não pra ser alienado mas com a certeza de que tenho um pé na realidade e outro nas nuvens.
A palavra e o poder, os dois na mesma frase e a frase em um parágrafo com cenas de ação, próxima espectativa, próxima linha no próximo parágrafo em outra página. Crio caminhos por entre exaustivos estudos dos sentidos e notas de rodapé, ao final defino “A poesia nos salvará!”, a fina arte de compor momentos mágicos com maestria.
Dizem que os artistas não enlouquecem pois sonham acordados e manifestam seus devaneios de todas as formas. Quão divido talento este de trazer do pensamento, do abstrato para a realidade dura dos que vivem presos e a enxergar o que seus olhos colocam diante destes, o poeta sempre vai além de seus registros, ele vive, acredita e sonha com suas palavras, com ele a eternidade está garantida.
Sobriedade e loucura, como controlá-las? Momentos que geram palavras de pedra como se fossem forjadas na rocha e momentos que geram amizade e ternura. O poeta anota, rabisca e conversa consigo mesmo, esta é a razão pelo qual faz sua arte.





In-sensibilidade

24 05 2009

A insensibilidade é algo altamente prejudicial a qualquer um…
Nestas poucas linhas, devo dizer o quanto é angustiante você se lembrar de uma pessoa e essa pessoa mal se lembrar de você.
Com poucas palavras ela tenta lembrar meu nome e lamenta que suas memórias estão um pouco embaralhadas sob o efeito do álcool mas se alegra por ver que eu estava bem.
Por um momento tento colocar todas minhas memórias a sua frente e estabelecer uma conexão com as suas, difícil, aparentou-me alguém que está muito longe da realidade do sonhador que fora um dia, lamentei.
Lamentei que suas memórias estivessem tão frágeis quanto uma pintura velha, lamentei que seus dias voltaram a ser a dura realidade das ruas, dos malabares, dos artesanatos, dias em vão e que ninguém olha das janelas, sua subsitência lhe garante seus momentos de devaneios e heróis imaginários, possíveis esperanças de que um dia terá suas feridas saradas e uma nova vida será a recopensa de suas penosas lágrimas.
O que fariam os ilusionistas da vida? Como recuperar alguém que vive a margem de si mesmo? O que devo fazer para que minhas lembranças não se tornem meras poesias empoeiradas e tão logo esquecidas?
A impotência diante da realidade é tão prejudicial quanto a insensibilidade dos que tropeçam diante dos que vivem apagados, distantes do humano digno, há muito abandonados por pessoas como eu, sinto-me insensibilizado.





Tanto quanto

6 09 2008

Minhas palavras são tão superficiais quanto a promessa de retorno.
Minhas estórias tão fracas quanto os relacionamentos virtuais.
Meus valores tão vendáveis quanto a pirataria barata dos camelôs.
Minha cultura é tão consumista quanto a ideologia do império.
Minhas raízes são tão frágeis quanto o cristal da madame de vida fútil.
Meus pensamentos são tão insignificantes quanto a vida de uma mosca.
Minhas escolhas são tão impulsivas quanto a comida de fast-food.
Meu caráter é tão corrupto quanto ao poder do dinheiro.
Meus poemas são tão curtas quanto essas linhas…
Minha indignação tão forte quanto desprezar minhas afirmações.
Minha mediocridade é tão ridícula quanto o senso de tranqüilidade das grades.
Sou um tanto quanto…
Aqui e alí, como você e nada de mais.





Ócio(2)

6 06 2008

Ócio, horas e horas pensando
Ócio, a tortura continua
Ócio, me empreste uma idéia
Ócio, o incessante tic-tac dos relógios
Ócio, o zapping de blogs
Ócio, a chuva que causa sono
Ócio, digito jabutis
Ócio, a ociosidade…
Ócio, os ossos do tédio
Ócio, muitas árvores depois
Ócio, mais uma folha cai
Ócio, a barba coça
Ócio, o rabisco no rascunho
Ócio, killing time
Ócio, uma lógica óbvia do nada
Ócio, logo durmo
Ócio, o “super size me” do improdutivo
Ócio, faça-me o favor
Ócio, os sons borram
Ócio, linguagem intangível
Ócio, a produtividade improdutiva
Ócio, superficilidade agussada
Ócio, quero algo para produzir
Ócio, fastio matator
Ócio, linhas e linhas sem nexo
Ócio, mais reticências…

Escrito em parceria com Thegodspeed